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Opinião
Fernando José Dias da Silva
 
O papel de cada um

Parece que o debate eleitoral está meio vago, meio sem rumo. Os assuntos são jogados no ar de acordo com o momento e há muita improvisação. O que é verdade. Nada mais irritante do que presenciar cenas com Serra querendo ser engraçadinho e espirituoso. Nada mais enjoativo do que assistir Dilma no seu papel de pessoa meiga, família, “gente como a gente”, em programas vespertinos da TV e em entrevistas a publicações dirigidas a mulheres desprovidas de neurônios.
Os próprios candidatos já devem estar fartos de cumprir esse ritual tão falsificado, tão sem importância e tão superficial. Até porque, sabem que o verdadeiro papel reservado a eles nesta campanha não é este. A campanha está chata, mas é provável que fique interessante mais para frente, na hora em que as estratégias forem colocadas em ação. Mas e porque essa mudança ainda não aconteceu? É a pergunta óbvia. Mas a resposta também é: porque ainda eles não encontraram a calibragem certa do discurso. A maneira mais eficiente e fácil de colocar suas posições de forma compreensível para o eleitor comum, o eleitor que não faz grandes exercícios de raciocínio para definir seu voto, não tem tendências partidárias nem ideológicas, não faz parte de grupos que atuam dentro ou na margem da política, qualquer tipo de política.
Por isso é que de repente a discussão também muda completamente de caminho e cai na questão do Banco Central ser independente ou não. E convenhamos, a autonomia do BC não é um tema que emociona corações. Ou a discussão se este governo é melhor que anterior não vai de forma nenhuma comover os eleitores e despertar um apaixonado debate com a exibição de gráficos apresentados por ambos os lados para demonstrarem seus argumentos.
Para o eleitor o que interessa é o que está acontecendo e o que vai acontecer. Desta forma não há escapatória: a disputa nessa eleição vai se dar para saber qual candidato está mais bem aparelhado para prosseguir no trabalho de aumentar renda, incluir os pobres na classe média, aumentar o consumo interno e abrir cada vez mais o mercado de trabalho. O resto são discussões paralelas, mas não menos importantes, para serem feitas em reuniões de professores, empresários, financistas e grupos de pressão. É o detalhamento que precisa ser executado, mas não vai aparecer no programa eleitoral do rádio e da televisão, nos debates entre os candidatos e nas entrevistas para os meios de comunicação de massa.
Serra e Dilma estão cansados de saber que o roteiro é este. A angustia é acertar seus personagens no papel que eles precisam representar. Uma coisa que não pode dar a impressão de ser forçada, de ser muito programada, precisa parecer espontânea como se eles já tivessem nascido para isso. Daí a dificuldade em encontrar o tom adequado para executar a coreografia que o eleitor espera.
O candidato da oposição tem mostrado até agora um comportamento mais linear. Serra, com as variações e as palhaçadas que a campanha exige, procura deixar clara a sua postura de que é o mais indicado para seguir o rumo tomado por Lula, com a vantagem de que o seu estilo será bem melhor. Aí Serra adota o discurso tucano de que não é conivente com a corrupção, tem experiência provada de gestão e lava a sério a responsabilidade fiscal. Serra pode mesmo não ser conivente com as mazelas do atual governo, mas precisa ser também convincente, porque os adversários não vão deixá-lo fazendo louvações a si mesmo sem mostrar que os governos tucanos não foram essa maravilha toda que eles dizem na propaganda. De qualquer forma, Serra está surpreendendo. A imagem de político convencional está sendo virada do avesso. Serra mais um pouco se transforma em homem-show com esperteza mineira. Porque essa história de dizer que Lula está acima do bem e do mal, não é passível de críticas para depois arrematar que ele não é candidato para deixar implícito que Dilma não tem essas virtudes é coisa de José Maria Alckmin, Magalhães Pinto, Tancredo Neves, no mais elevado estágio da rapozice mineira.
O caso de Dilma é mais complicado. Até agora ela não foi bem. Parece que entrou no palco para mostrar as bondades executadas pelo seu chefe se esquecendo que a candidata é ela, que Lula está fora do páreo. Nada mais natural do que ter sido chamada de boneco de ventríloquo. Mas agora já se nota uma correção no rumo da campanha. Devagar Dilma está se colocando como figura chave de todo o processo que promoveu os avanços pelos quais Lula passou a ser respeitado. Sua primeira manifestação nesse sentido se deu quando afirmou que ela era o governo, que havia participado 24 horas do governo durante todo esse tempo. Uma tentativa de passar da posição de carregadora de pastas e documentos do presidente para a condição de sócia de um projeto que teve êxito. E é claro que Lula vai reforçar essa nova abordagem para a campanha, onde as brigas que ela teve com seus companheiros de governo serão transformadas em fatos determinantes para que a dinâmica do desenvolvimento fosse mais rápida, menos lenta como queriam alguns.
Então, ao que parece a rota a ser seguida pelos dois principais candidatos já está determinada. A dificuldade ainda continua sendo a sintonia do discurso, a calibragem dos movimentos. Porque essa não é uma eleição comum onde governistas pregam continuidade e oposicionistas pregam mudanças. Que todos vão pregar continuidade é ponto pacífico, mas cada um com as suas peculiaridades para embelezar o bolo da festa. A cereja do bolo que precisa ser diferente para atrair os convidados.






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