|
|
|
|
Opinião
|
|
| Fernando José Dias da Silva |
| |
A gostosa e divertida escorregada para a direita |
|
|
A piadinha é de mau gosto: na Espanha se diz que a aposentadoria agora só sai com o atestado de óbito. Uma ironia cruel em cima de uma medida que é mais de mau gosto ainda: a aposentadoria sobe para o sessenta e sete anos e faz parte de um pacote que vai prejudicar de forma contundente os direitos do trabalhador e criar mais insegurança na sociedade que já vem aflita e com a maior taxa de desemprego da Europa desde o começo da crise financeira do “sub-prime”. A ministra da economia, Elena Salgado, que tem cara de ministra da economia, magra, elegante, amarga, com sinais claros de ter problemas gástricos sérios, foi impecável na sua exposição de motivos. Racional, pedagógica e muito fria explicou que avançar no sistema de Bem Estar Social era a única maneira de evitar a hecatombe, no que foi respaldada pelo ministro do trabalho e, principalmente, pelo chefe de governo, José Luiz Zapatero, aquele senhor de olhar triste que sempre parece deslocado em qualquer ambiente que entra. Mas desta vez ele não pediu licença e nem desculpas para afirmar que não tem medo do debate e que a cidadania entende que é preciso reformar as pensões. Não se sabe se a cidadania entendeu. Mas os colegas socialistas de Zapatero, os sindicatos e outras representações de trabalhadores não entenderam. Isto porque as justificativas para cravar os dentes no lombo do trabalhador são racionais, lógicas, bem fundamentadas e apresentadas sem emoção, como se fossem medidas técnicas que tem que ser tomadas para consertar um encanamento, por exemplo. Só que por cima delas também existem justificativas de grande peso que envolvem o sentido da sociedade, o espírito do bem comum, da cooperação e da busca de mais igualdade. E é desqualificando o contorno humano do problema, adotando uma visão de curto prazo para contentar os mercados financeiros que a esquerda vai entregando o seu capital político para os mestres do pensamento único, que balançaram na crise financeira, mas já voltaram à posição de domínio das iniciativas através das exigências das suas organizações corporativas, como FMI, OMC, Banco Mundial, para que se cumpram a velhas regras por eles ensinadas de uma sociedade submetida à lei do mais forte. É verdade que para ajudar bancos quebrados, os governos se endividaram, entraram no vermelho, passaram dos limites. Os magnatas voltaram a receber bônus magníficos, mas é preciso encontrar alguém que pague as contas para que o mundo financeiro volte a receber os juros, tudo direitinho. E assim volta também o discurso de que não existe outra maneira a não ser avançar nos direitos dos mais pobres para reequilibrar as contas. O governo socialista espanhol está envergonhado voltando atrás. Mas não importa, a rota está traçada para a derrota eleitoral da próxima eleição. Ou não, como diria Caetano Veloso. Isto porque os socialistas, principalmente os europeus, já perderam a vergonha e não se incomodam de estar sempre na frente para implantar reformas liberais e dar as costas para o eleitorado. Por isso não existe nenhuma surpresa quando o presidente do FMI, Dominique Strauss-Kan, anuncia que pode sair antes de terminado o seu mandato para disputar uma vaga de candidato nas próximas eleições presidenciais francesas, pelo Partido Socialista, é claro. No Brasil é diferente porque ninguém é de direita. Até o presidente da Fiesp é quadro destacado do PSB. Os tucanos majestáticos com as suas plumas dizem que deram inicio a tudo e a paternidade dos programas sociais é deles com prova passada em cartório. Lula, que se considera Cristóvão Colombo, garante que além de descobrir essas paragens inaugurou o Bolsa Família e tudo mais, até o coqueiro que dá coco, do Ary Barroso, se não me engano. Mas aí, pergunta singelamente o professor José Arthur Giannotti: “O cerne de uma política de esquerda se resume em tornar menos pobres as classes desvalidas ou em ajudar para que elas adquiram mais voz e poder?” Giannotti, para não deixar os gigantes da engenharia política dos tucanos e do petismo pensando resolve responder ele mesmo a questão afirmando que: “Mais importante do ponto de vista político é a transferência de poder, criar partidos e associações de massa onde elas possam fazer valer seus pontos de vista. Justiça social como conquista não como dádiva ou a crédito consignado”. Nesse aspecto é preciso concordar com Giannotti, que por sinal é amigo íntimo de Fernando Henrique. Não foi feito nada para tornar a sociedade mais igual. Tanto no período FHC como no período Lula. O que houve foi uma troca de favores por cima, onde o governo segurou os seus e assim evitou greves reivindicações fora de hora em troca das leis trabalhistas ficarem intocadas, mas nem tanto. É certo que os candidatos preparados para a próxima eleição vão se apresentar como defensores dos pobres. Mas é só a imagem. A qualidade da democracia brasileira é péssima. E o que importa, diz José Arthur Giannotti, é criar possibilidades para que as massas populares tenham voz, capacidade de decidir, controlar e higienizar os meandros do poder. Aprofundar a democracia. Depois nós partimos para outros assuntos.
|
|
Voltar
|