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Opinião
Fernando José Dias da Silva
 
A espera de um táxi ou de um milagre

As palavras de Aécinho soam enigmáticas. Ele diz que depende do destino, mais do que da sua vontade, voltar a ser candidato à presidência da República. É o destino que comandará essa decisão, disse o governador de Minas. “Nós que fazemos política, não somos donos do nosso destino”, arrematou Aécio ajeitando a pele de raposa que trazia nas costas.
As palavras do cacique tucano-mineiro não foram dirigidas para sublinhar o apreço sincero que ele tem por José Serra, que divide com ele e mais dois ou três o comando da oposição. A questão é saber se Aécio disse o que disse porque sabe de alguma coisa ou apenas demonstrou mais claramente que São Paulo e Minas não vão se juntar na empreitada para tirar do atual governo o mando do jogo.
Interessante é que no mesmo dia das palavras soltas ao vento proferidas por Aécio, Ciro Gomes reuniu a turma da imprensa em Brasília para dizer que não abandonaria a sua candidatura à presidência. Ciro que tem uma delicadeza peculiar para abordar temas delicados arrasou o acordo PT-PMDB, chamou José Dirceu de golpista e disse que Lula estava errado ao insistir montar um quadro para que as coisas se decidam no primeiro-turno. Nenhuma palavra sobre Serra, que já foi chamado pelo irrequieto político cearense de pessoa mais feia na alma do que na aparência.
Ciro dá toda a impressão de que o governo está ameaçando deixá-lo na chuva sem capa e nem galochas. Uma atitude perigosa, por parte do Palácio do Planalto, porque apesar da chuvarada destes dias existem ainda táxis circulando livres que podem recolhê-lo.
A campanha atravessa uma hora perigosa porque as coisas ainda estão soltas. Alguns compromissos já foram acertados, mas nada formal, nada oficializado, o que torna mais fácil o caminho para uma reviravolta. E não é fácil identificar aqueles que estão prontos para dar o bote se acontecer alguma vacilada. Basta voltar ao que já foi escrito acima.
Mas a verdade é que as últimas pesquisas, a do Vox-Populi e a da CNT-Sensus, mexeram com os nervos dos bonitões, o que não deveria ter acontecido porque é gente acostumada a mexer com esse material pouco nobre que é produzido nas usinas de processamento de fatos que ajudem as campanhas dos candidatos. Não imaginar que Dilma Roussef iniciasse a sua escalada com o patrocínio tão insistente do governo é ingenuidade. Como é ingenuidade imaginar que o acordo com Ciro pode ser fechado sem que haja nenhuma contrapartida para beneficiá-lo e para beneficiar o seu partido, o PSB. Aí não é negociação, é paredão de fuzilamento. É aniquilamento puro e simples.
Mas pode ser tudo jogo de cena? Pode, mas as imbecilidades produzidas até agora mostram que existe mesmo uma certa irresponsabilidade no ar, que as coisas estão sendo feitas sem uma maior reflexão. De um lado o PT com o seu jeito meio estúpido de ser tentando passar por cima de aliados importantes nos Estados. A declaração do jurista Tarso Genro sobre a escolha de Dilma como candidata também é uma pérola rara desse momento. Ele disse que a candidata é fruto do esvaziamento de quadros do partido devido ao mensalão. Ou seja, não tinham quem pôr, então vai essa mesmo.
Do lado da oposição também existem contribuições inestimáveis para colorir com tintas mais fortes esse momento. As intervenções do presidente dos tucanos, o senador Sérgio Guerra, são antológicas. A entrevista que ele deu à revista Veja dizendo que iam acabar com o Bolsa Família e iam modificar a política econômica provocou espanto até no repórter entrevistador e lhe valeu o apodo de “babaca” perpetrado por Lula. Hilariante essa história porque depois os tucanos foram discutir se o “babaca” era de bom gosto ou não.
Existe muita tensão no ar, nervosismo da moçada que sabe que precisa avançar, mas não sabe para onde. Mas a verdade é que a campanha está entrando no seu caminho lógico da polarização entre as duas principais forças do quadro político brasileiro: o grupo de Lula e os tucanos, que por sinal se completam. Por isso é difícil sair desse roteiro que se repete desde a eleição de Fernando Henrique.
Por isso aqueles que esperam surgir um táxi providencial para recolher os esquecidos no meio do temporal talvez estejam mesmo em busca de um milagre. Um milagre difícil de acontecer porque o guichê para esses assuntos lá m cima está fechado, não está atendendo devido ao acúmulo de trabalho nos outros setores de milagres. E também porque não adianta, a essa altura, imaginar mudanças no curso dos acontecimentos quando toda a dinâmica do processo de escolha do novo presidente foi estabelecido nesses parâmetros. Sem que alternativas fossem pensadas e nem novas idéias tivessem sido postas para circular.

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