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Opinião
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| Fernando José Dias da Silva |
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Um gesto amalucado e... bem safado |
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Alguma coisa deu errado. Os guardiões da ética, os maiores críticos do governo corrupto que está no poder, aqueles que anunciavam novos tempos de retidão com a coisa pública e fiscalização implacável em cima dos desvios de conduta dos adversários foram pegos em flagrante delito. E não foi uma acusaçãozinha que dá tempero ao jogo político. Foi um vídeo onde aparece o governador de Brasília, de corpo inteiro, ascarrapachado numa poltrona, contando um maço de cinqüenta mil reais e distribuindo orientações de como os seus aliados deveriam ser tratados na divisão do suborno. E deu errado porque o ex-PFL tinha sido fechado para a reforma. Renovou o seu comando, botou gente mais moça na sua direção, incorporou um discurso bem mais radical na defesa dos cuidados a serem prestados com relação ao dinheiro público, apertou a porca contra o governo e mudou até de nome, para que não pairasse mais dúvida sobre o novo partido que estava nascendo. A ex-Arena, os ex-PDS e, enfim, o ex-PFL virou Democratas, com tudo que parecia novo, para tentar se livrar da sua mancebia com a ditadura, da sua atuação nos governos em que foi aliado, da má fama que carregava consigo. Só se esqueceu de trocar as pessoas que militam dentro dos seus quadros. Gente que tem hábitos arraigados, difíceis de serem mudados. Gente acostumada a funcionar de uma certa forma e, não tem jeito, transmite para os mais novos essa herança. José Roberto Arruda, o governador de Brasília, o único governador do partido, cotado para compor a chapa da oposição na disputa para a presidência da República no ano que vem, foi o responsável por mostrar a verdadeira face do Democratas. Introduziu a graxa do suborno ao vivo, com imagens em série. Dizem que centenas de horas, a maioria ainda não divulgada, mostrando o pessoal botando grana na cueca, na meia, na bolsa, onde pudesse levar o produto daqueles arranjos que são feitos por baixo da mesa, atrás das cortinas. Foi um ato amalucado. Arruda pediu a sua saída do Democratas. Viu que ficar brigando para se manter era mais prejudicial à sua saúde do que pular fora. Mas não importa. O strip-tease imoral que ele encenou para a platéia boquiaberta foi executado com o botton de democrata. Depois de ser tratado como estrela dentro do partido, o Democratas queria a sua expulsão o mais rápido possível. Ato cirúrgico que não foi efetivado, porque ele antecipou a jogada. Não adiantou tentar evitar a ejeção partidária apelando para a Justiça. O recurso contra a expulsão não foi acatado. Mas continua valendo o toque de reunir da sua tropa para evitar o impeachment na Câmara Distrital de Brasília. O Arrudinha ainda pode dar trabalho, porque vai ficar como um morto-vivo sem partido pairando sobre as cabeças e os destinos de seus ex-companheiros de fox-trote. Mas não dava mesmo. Ninguém levou a sério suas justificativas. A primeira do Panetone é divertida, mas ninguém achou graça. Ele argumentou que o dinheiro seria usado para comprar o tradicional acepipe italiano para dar de Natal aos pobres da cidade. A desculpa foi rapidamente desqualificada porque a movimentação do dinheiro nas operações ultrapassa de muito a compra de toda a produção de panetones nacionais durante anos. Um produto que tem prazo de validade e não pode ser estocado por muito tempo. Na falta de coisa melhor, a desculpa encontrada foi a de que todos fazem o mesmo, governo e oposição. O que é uma grande verdade, mas ninguém foi retratado da forma como Arrudinha. Com qualidade perfeita de enquadramento, iluminação, perspectiva e áudio. A performance do governador brasiliense é inédita, já que até agora os vídeos existente eram praticamente amadores, feitos através de celulares e câmeras de vigilância. Também nenhum barão da política foi pego com a mão na massa. Os personagens até agora eram do terceiro, quarto escalões. Ele não. Ele foi profissional. É garantido também que agora o Democratas vai dizer que pelo menos o malfeitor que circulava nos seus domínios foi punido. Muita gente sabe para onde Arrudinha deve ser mandado, mas isso não importa. O que importa é que o abalo pode complicar a montagem da chapa oposicionista à presidência da República e José Serra além de tourear Aécio Neves ainda vai ter que conviver com essa escorregada do principal aliado dos tucanos. Desta forma alguma coisa mudou não só no Democratas, mas também no quadro da sucessão de Lula. O escapismo usado até agora para evitar o assunto é teorizar sobre a corrupção. O presidente propõe uma constituinte para fazer a reforma política. O Congresso apóia. A OAB, a Transparência Internacional, o Supremo, o Vai Vai a Liga de Futebol de Botão da Lapa, todos dão palpite e se sentem horrorizados. Não adianta, porque as instituições não estão funcionando a pleno vapor para garantir o cumprimento das normas de conduta que devem nortear a prática política. Cá pra nós, os políticos estão pouco se lixando com a questão da corrupção. Ela é apenas um tema interessante para ser usado na próxima campanha. Um bom trampolim para o marketing dos candidatos. A aí está o perigo. Os políticos passarem a usar a antipolítica para tentar fazer diferença na disputa do ano que vem. A antipolítica ocuparia lugar de destaque. Os candidatos podem recorrer a ela para se distanciar do lodo. Principalmente na disputa para a presidência os candidatos podem negar a política. Podem criticar os partidos, os seus colegas políticos, com o argumento de que só eles podem enfrentar essas feras, domar o instinto da classe pela corrupção. É uma tática de emergência, adotada no calor da hora, porque ninguém pode prescindir da intermediação política para resolver conflitos numa democracia mais ou menos estabelecida. Mas pode funcionar. Mais uma mentira pode funcionar.
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