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Opinião
Fernando José Dias da Silva
 
Como se desenha uma crise

Não existe crise. As condições econômicas e sociais não revelam nenhuma indicação de crise institucional, pelo menos no curto prazo. Mas a crise existe. A sensação de crise está presente nos jornais, na televisão, na voz dos políticos, na cabeça de algumas pessoas e na rua. E assim, a crise que não existe pode virar uma um problema daqueles enormes, de onde é difícil sair, que não pode ser solucionado de imediato.
Esta situação perigosa não faz parte do nosso cenário, mas está presente na Argentina. Um belo estudo de caso que mostra que a turbulência pode ser criada em laboratórios, em gabinetes de poderosos, em escritórios refrigerados de líderes sindicais, empresariais, ruralistas e até em programas de variedades na televisão.
Por isso, há que ter cuidado com as ruas. É nas ruas que a crise começa a ser real através da ação direta dos grupos radicais que estão à direita e à esquerda, mas sempre contra o governo. A ação direta ignora a intermediação do governo, da justiça, dos comitês de negociação, das lideranças legitimadas. Torna a cidade um inferno com as suas manifestações, a ocupação das avenidas, das praças, com o corte nas estradas, com a greve selvagem do metrô, com a tomada de reféns nas fábricas.
Nesse clima maluco basta um cadáver para fazer desandar a racionalidade, a busca da negociação e do entendimento. Buenos Aires é assim um caldeirão perigoso, principalmente porque não existe nenhuma intenção de acalmar os ânimos entre todas as partes em conflito. O governo joga duro, a esquerda radical joga duro e a direita que baba na gravata também joga duro exercitando os seus métodos já conhecidos de todos.
Às vezes, nesta fervura, surge uma centelha de bom senso. O governo resolveu desarticular uma enorme manifestação que estava marcada para o dia 20 de novembro, na Plaza de Mayo, organizada pelos “gordos”, os chefes sindicais da CGT que apóiam o casal K, de Kirchner. Ali seria o local ideal para a provocação, para o enfrentamento, para a pancadaria e o surgimento do tal cadáver.
A ação direta levada às ruas e estradas é uma constante na vida argentina. Mas a sensação térmica sugere que recrudesceu depois das eleições parlamentares, onde os K perderam a maioria no Congresso, mas paradoxalmente recobraram a ação política. Segundo Mario Wainfeld, articulista do jornal “Página 12”, essas manifestações vêem de antagonistas do oficialismo alojados à sua esquerda. Em geral são forças políticas dotadas de militância aguerrida, bem organizada e suas lideranças tem alta representatividade em coletivos pequenos, com baixo potencial eleitoral.
Wainfeld, entretanto, assinala que também minorias intensas, entre elas as corporações agropecuárias, são exemplos de um fenômeno que está marcando os governos Kirchner, de Nestor e agora de Cristina: a metodologia da ação direta se “deslocou para cima” e para a direita através de um discurso radical contra o governo contra a asfixia dos impostos, contra a falta de segurança e contra o autoritarismo da Casa Rosada. É, a direita está dividindo as ruas com a esquerda.
Assim, o governo se sentindo cercado pelos dois lados deu uma pirueta na agenda e em três tempos aprovou a lei da mídia que abranda o monopólio dos meios de comunicação, proibiu a exclusividade das transmissões dos jogos de futebol por determinados canais, fez passar a reforma política, defende a lei que discriminaliza o aborto, o Congresso aprovou, com a ajuda governista, a obrigatoriedade do recolhimento do DNA para os casos de investigação de paternidade dos desaparecidos na ditadura, estimulou a maior velocidade no julgamento dos acusados de “terrorismo de Estado” do período militar e ainda tomou várias outras iniciativas que deixaram de cabelo em pé os proprietários dos jornais La Nacion, Clarín e da revista Notícias, a cúpula da Igreja e certa parte do empresariado que tomou um susto quando o governo retomou a parte da previdência social privatizada.
O jornalista Jorge Lanata, talvez o principal e mais polêmico representante da imprensa argentina, admite que Nestor Kirchner, apesar de tudo, é um líder que os outros não são. Lanata afirma que a Argentina está com problemas sérios, que o desemprego está aumentando, que a situação econômica é cada vez mais artificial, está havendo dificuldades com os sindicatos. Problemas que parece que não existem, porque só existe o que Kirchner tem como obsessão “ e aí é onde ele se equivoca e este vai ser o erro de Kirchner.
A obsessão de Kirchner, ao que tudo indica, é voltar ao poder, substituindo a sua mulher e transformando a Casa Rosada em endereço fixo do casal K. Segundo analistas isentos Nestor vê conspirações onde elas não existem. Pode ser, mas Lilita Carrió, que ficou em segundo na disputa com Cristina na última eleição presidencial, mandou cartas a inúmeros chefes de Estado pelo mundo denunciando a presença de armas e consultores estrangeiros no interior de organizações e grupos sociais. É estranho. E Lilita ainda é contida. Um grupo de ex-carapintadas prega e destituição de Cristina pelo Congresso para livrar a Argentina do perigo da ameaça neomarxista, da destruição do país, do desmantelamento das instituições democráticas.
Perder o controle dos grupos radicais e a obsessão de Nestor em voltar à presidência podem ser as grandes armadilhas para o projeto de poder do grupo K. E o Brasil nisso tudo? O Brasil observa, apóia o governo atual, mas pode ficar numa situação incomoda se o casal resolver tentar continuar no poder.

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