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Opinião
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| Fernando José Dias da Silva |
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Hipócrates para políticos |
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Nós vivemos, todos, em cima de um prédio muito grande, muito alto, que, de longe, pode parecer bonito. Mas a sua estrutura é feita de varetas, amarradas com cipó ou barbante, suas paredes não tem concreto, só gesso que se esmigalha com um toque, seu encanamento é feito de canudinhos para tomar milk-shake, a rede elétrica tem as suas conexões fixadas com massinha colorida das crianças brincarem, não existem saídas de segurança, os extintores contra incêndio estão vencidos há anos. Tudo parece de mentira, mas não é. Tudo parece falso, mas não é. Nós estamos em cima de uma coisa que não pode nos sustentar. O nosso prédio não pode se sustentar. Vai contra os critérios da lógica e da física. Só não ficamos aterrorizados porque a única coisa que funciona com eficiência é a propaganda. Para vender governos, para vender prédios, para vender serviços, tudo funciona as mil maravilhas. Estamos rodeados de porcarias que não funcionam. O celular não fala, a Internet não navega, a TV a cabo se desconecta a toda hora. O serviço prestado é de qualidade inferior, mas as tarifas não. Também seria exigir demais, porque a faculdade não ensina, só arrecada, como os hospitais não atendem pacientes, a segurança não exerce o seu papel e a organização do trânsito é uma ficção. É muita gente que vive por um triz. E reclamar para quem? Existem agencias reguladoras que deveriam fiscalizar. Não fiscalizam e nem regulam, parecem mais sócias das empresas que estão sobre as suas jurisdições. Os aeroportos estão abarrotados de gente esperando vôos e o movimento pesado das férias não começou. Vai acontecer alguma coisa? Não se sabe. Pode ser que sim, pode ser que não. Por isso, nada mais natural do que apagões aqui e ali. Eles se sucedem, cada vez com mais freqüência. Agora é o apagão elétrico que está tirando o governo e a oposição do sério. Um nervosismo que só diz respeito aos dois lados, porque ambos só vêem as implicações políticas do acontecido. Começam a discutir para saber qual é o melhor apagão, de Lula ou de Fernando Henrique, observa Alon Feurwerker, no Correio Braziliense. O resto do país está mais preocupado em entender como o governo vai fazer para evitar que isso se repita. Não dá para Lula querer enfrentar o assunto na base do “meu apagão não é tão grave quanto foi o seu” (da oposição) ou do “deixem comigo, pois meu governo tem 70, 80% de aprovação e eu sei o que estou fazendo. Ou do “eu fiz o máximo, não encham”, lembra o jornalista. É duro aturar esses políticos. Quanto mais agora que Lula está adotando a doutrina Roberto Carlos: “Eu quero ter um milhão de amigos e assim mais forte poder cantar”. O cara (na versão Obama) faz um espalhafato danado dos milagres que promove. Agora quer passar incólume e devagarzinho por esse terreno pedregoso. Não dá. É claro que a oposição vai usar o apagão elétrico para jogar a culpa em Dilma Roussef, em Lula e até em quem serve cafezinho no Palácio do Planalto. Uma bela oportunidade para dizer que Dilma não pode vender a imagem de técnica competente, porque esteve no Ministério das Minas e Energia. É a temporada de provocações que começou e vai durar por um bom tempo. Essas provocações fazem parte das preliminares que antecedem o grande jogo eleitoral, que começa no ano que vem. A melhor resposta aos ataques oportunistas é trabalhar com a verdade. Deixar claro o que aconteceu e quais as providências para que isso não aconteça mais. Começar a inventar conspirações, tentar identificar trabalho de sabotadores é delírio de quem está mesmo no plano da metamorfose ambulante. Lluís Bassets, articulista em El País, teve uma grande sacada dizendo que o juramento de Hipócrates também deveria se converter em lema para a política, para o jornalismo e para a Justiça. Pelo menos em parte porque o juramento não é mais levado a sério nem mesmo pelos médicos quando prometem exercer a profissão partilhando os seus bens, se necessário, sem remuneração. Bassets não se refere a essa parte, seria ingenuidade. O jornalista se fixa na promessa de usar a profissão para fazer o bem do doente “segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém”. Aí está o núcleo daquilo que deveria ser a nova ética na política: não causar dano, prejuízo, sofrimento sobre aqueles que dependem, de alguma forma, do poder e daqueles que estão no poder. O habitual é que aconteça o contrário daquilo que Hipócrates exigia dos médicos. O problema é que existe muita hipocrisia.
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