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Opinião
Fernando José Dias da Silva
 
Os novos contadores de histórias

As opiniões estão divididas. Alguns acham que com a última campanha presidencial norte-americana a época do marketing-político chegou ao fim, pelo menos da forma como ele era pensado até agora. Outros concordam que as coisas mudaram, mas o marketing ainda vai sobreviver por algum tempo. E toda a discussão tem como núcleo outro mecanismo usado nas campanhas que é simples, precisa ser simples para que todo mundo entenda, mas é fundamental e por isso tem que ser sofisticadíssimo: trata-se da versão. A luta eleitoral não se resume mais em saber vender o candidato como sabão em pó ou comida para cachorro, vender uma marca de desodorante. O importante é contar uma história, cuja versão mobilize o eleitor, faça com que ele saia de casa para votar; convença os seus amigos, a sua família, a votar em determinado candidato.
E aí entram em cena os spin-doctors, os fabricadores dessas versões. Os encanadores que consertam a realidade, que põem os tubos dispostos de maneira tal que o fluxo da água venha a encher o tanque do candidato. Os spin-doctors usam suas caixas de ferramentas desde a era Reagan. Mas nessa campanha tiveram atuação fundamental tanto de um lado como do outro. Na campanha republicana para deixar evidenciados os erros. E na campanha democrata para mostrar a excelência do trabalho desses novos criadores da realidade.
Toda essa novidade, esse novo estilo de conseguir capturar o gosto do eleitor e até transformá-lo em ativista tem um nome: David Axelrod. Considerado por seus inimigos um crápula, sem escrúpulos, impiedoso e manipulador. Perfeito. Com todas as qualidades para ser um ótimo conselheiro político. Ele está com Barack Obama desde 2004. É o inventor do “changement” e do slogan “Yes we can!”. Os dois se conhecem desde 2002 e Axelrod tentou fazer Obama desistir da candidatura ao Senado, ele preferia a candidatura para a prefeitura de Chicago. Mas os dois se entenderam e o seu cargo na campanha foi o de “chefe estrategista”. Alguns o chamam de “Karl Rove de Barack Obama”, uma comparação ao arquiteto da vitória de George Bush em 2004 e das suas maldades feitas contra os adversários. Uma comparação nem um pouco elogiosa.
Mas para os especialistas em Axelrod a comparação não é exata. A função de trabalhar resultados eleitorais, estudá-los e transformá-los em vitórias, atividade em que Rove era mestre, ficou na campanha para David Plouffe, sócio de Axelrod no escritório que comandou a campanha de Obama. O negócio do homem mais próximo do candidato democrata era tratar dos spots publicitários, das mensagens e das sondagens feitas pelo seu escritório.
David Axelrod ganhou experiência no gabinete do primeiro prefeito negro de Chicago, Harold Washington. E aí se tornou expert na maneira de manobrar a questão racial, jogando com a culpa dos brancos, fazendo críticas para eleger negros, mas nunca usando imagens e palavras que pudessem despertar ódio. Quando trabalhou para a eleição do primeiro governador negro de Massachusetts, Patrick Deval, em 2006, criou o slogan “Yes we can”. A empresa de Axelrod e Plouffe ganhou 700 mil dólares para fazer a campanha das primárias e no total eles devem receber um por cento do total de investimentos publicitários feitos durante todo o processo eleitoral, o que não é pouca coisa. Barack Obama se dá bem com Axelrod. O novo presidente eleito chegou a dizer ao “New York Times” que Axelrod “não era um mercenário: ele acredita no que nós fazemos”.
Assim os marqueteiros viraram subalternos dos spin doctors, perdão, conselheiros políticos. E Obama é a expressão mais bem acabada da arte de apresentar idéias conhecidas embrulhadas de forma diferente, numa nova versão digamos assim, numa nova história que precisa ser cativante. Ele não falava de pobres, falava de classes médias; não exorcizava com indignação a discriminação, mas prometia dignidade e condições justas e melhores para os marginalizados. Através do dinheiro arrecadado pela Internet e por outros meios conseguiu manter a imagem de bom moço, sem perder o sorriso nem quando era atacado de forma pesada pela turma de John McCain. As respostas a esses ataques foram fulminantes, mas feitas com todo o cuidado para deixar claro que campanha negativa quem fazia era o outro lado. Sem problemas na arrecadação de verbas conseguiu através da propaganda juntar de forma indivisível o governo George Bush com o esquema McCain. Não faltou dinheiro para aproveitar as oportunidades como aquela que surgiu no dia 15 de setembro, no meio da tempestade financeira, quando McCain deu declaração garantindo que as bases da economia eram sólidas. A equipe de Obama fez repercutir o erro do republicano à exaustão.
A dupla Axelrod e Plouffe deve estar levitando em estado de graça até agora depois do sucesso de 4 de novembro. Mas e agora? Neste momento está sendo lembrada uma cena acontecida em abril de 1945 no velório de Rossevelt. Harry Truman, o vice-presidente que seria empossado chegou para Eleanor Roosevelt e perguntou: “posso fazer alguma coisa pela senhora?” A resposta veio rápida e cortante da parte de Eleanor: “e eu posso fazer alguma coisa? Porque agora quem está em dificuldades é você”.

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