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Opinião
Fernando José Dias da Silva
 
Tempos de euforia, mas também tempos interessantes.

Todo mundo ficou contente. E de fato foi um feito extraordinário, muito maior do que a eleição do primeiro negro para a presidência dos Estados Unidos. No dia 4 de novembro aconteceu aquele momento mágico do encontro de uma população desesperançada pela crise financeira, pelas desigualdades, com um homem que diz que as mudanças são possíveis. Basta segui-lo. Basta votar nele. Basta acreditar nele.
São mesmo tempos interessantes. Momentos de espanto até que, ao contrário do medo espalhado, do medo propagandeado pelos adversários trazem alento. Trazem a esperança levantada por Barack Obama no seu slogan já velho conhecido: “Yes, We Can” (Sim, nós podemos).
Foi uma festa para a qual todos foram convidados e onde os seus participantes precisavam só acreditar que existe alguma coisa estranha, mas comum a todos. Essa coisa comum, geral, generosa, quase igualitária que é a verdadeira tentativa de entendimento, de um caminho compartilhado, cheio de dificuldades, é verdade, com altos e baixos, com confrontos fenomenais, mas que está longe de ser inviável.
Até os mais circunspetos rasgaram a fantasia. Não resistiram à boa nova. Antonio Caño, tarimbado correspondente do “El País”, nos Estados Unidos, escreveu que “Obama abre as portas a um novo mundo, destrói as barreiras raciais e revalida os EUA como modelo universal”. Eric Fottorino, um dos mais elegantes articulistas do “Monde”, não escondeu a sua alegria: “Primeiro é preciso escrever estas palavras com todas as letras. E lê-las lentamente, em voz alta, para medir a amplitude da novidade, sua carga histórica e de emoção: o povo americano acaba de eleger para a Casa Branca um homem de pele negra. Que inteligência, que maestria que sangue-frio...”. Lluis Basset, editor do El País, fala em “tempos para sonhar”. E Annette Lèvy-Villard, do “Libération”, usa a ironia para dizer que “o americano não é um cretino”. A jornalista explica que a “super-boa-nova é que a América à qual se dirigiam John McCain e Sarah Palin não ouve mais os seus discursos. O americano branco, conservador, patriota, que McCain chamava de ‘Joe o Encanador´, não entra mais em mentiras”.
É isso, a eleição de Barack Obama provocou no mundo inteiro uma inflação de superlativos: acontecimento do século para uns, esperança de um novo começo, para outros, ou ainda o aparecimento de um candidato de tipo novo, o primeiro presidente do Século XXI. Na chegada do primeiro negro à Casa Branca o símbolo é essencial para mudar a imagem de um país colocado nas sombras por oito anos da presidência de George Bush. Mas essa euforia carrega, ela mesma, o risco da decepção. Obama está consciente da situação. No discurso de Chicago insistiu nas dificuldades que esperam todos os americanos e no longo caminho a percorrer antes de vencer três grandes desafios: duas guerras e as conseqüências econômico-sociais da crise financeira.
Aí chegam os céticos, aqueles que não acreditam mais em nada e começam a desqualificar a vitória de Obama dizendo que a expectativa gerada não é verdadeira porque foi criada através do marketing, através da manipulação das massas. E que o novo presidente eleito dos Estados Unidos não poderá cumprir as promessas de mudança feitas muito acima das suas possibilidades. Os cínicos então esboçam apenas um meio sorriso ao ver passar o espetáculo da política.
O jornalista do “Los Angeles Times”, Peter Nicholas, escreveu outro dia que depois de um ano e meio de campanha, à razão de 18 horas por dia com o candidato, ele não podia dizer com certeza aos seus leitores quem era Barack Obama. Nicholas viu disciplina, uma certa dureza e raramente a espontaneidade que no fim o levou a perguntar: quem é, no fundo, Barack Obama?
A resposta pode ser mais simples do que se imagina. “Barack é a pessoa que parece ser”, diz o professor da Universidade da Califórnia, Mark Sawyer, que antes estudou em Chicago e seguiu o curso de direito constitucional de Barack Obama. “Ele é igual a ele mesmo: brilhante, meio enigmático com relação às suas posições, capaz de defender pontos de vista divergentes. E, ao mesmo tempo, sempre distante, como se estivesse sendo chamado para outra coisa”. Os dirigentes de seus comitês eleitorais se surpreendiam ao ver a que ponto ele havia estudado o modelo de campanha de George Bush em 2004. Seus conselhos aos chefes dos comitês eram sempre precisos: dirigir o pessoal com respeito, fazer surgir as idéias da base e evitar dramas.
Na presidência não há como escapar: o enigma Obama será decifrado. Mas talvez esse seja um assunto para mais tarde, como também as questões relativas ao governo. Como dizia o sábio Gilberto Gil: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Uma coisa foi a eleição - uma jornada gloriosa. Outra coisa será o governo. E aí veremos.

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