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Opinião
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| Fernando José Dias da Silva |
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Encontro com a história |
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É perigoso falar em “ansiosa urgência da hora”, no encontro com a história ao dobrar a esquina, no sonho que está a um passo de se tornar realidade. É perigoso porque pode soar falso, demagógico e até fora da realidade. Sarah Palin não poderia dizer essas coisas. George Bush muito menos. Nenhum político brasileiro teria a ousadia de cometer essas licenças de linguagem. Seria vaiado, desacreditado. Nem a sua família levaria fé num sujeito exagerado e mentiroso assim. Pois Barack Obama pode. Fala. Reúne centenas de milhares de pessoas, em cada comício, que querem vê-lo, querem ouvi-lo falar justamente sobre isso: sobre mudança, sobre a união de um país que está dividido. E as pessoas acreditam. Cada dia que passa, Barack Obama, adquire maior legitimidade para dizer que está pronto para o seu encontro com a história. A resposta a essa “ansiosa urgência da hora”, da qual falava Martin Luther King, talvez possa estar resumida em uma só palavra escrita em letras maiúsculas e fixada nos cartazes levantados durante as suas aparições públicas: “HOPE” (“esperança”). O correspondente do jornal francês “Le Figaro”, Renaud Girard, acompanhou embasbacado os comícios de Barack Obama, na Flórida. E conta que existe uma magia pessoal transmitida pelo candidato democrata que ultrapassa a política. As pessoas não vão ao seu encontro para obter esclarecimentos sobre determinado ponto de seu programa. Elas sabem que isso pode ser encontrado na televisão, no jornal, na Internet. Vão para vê-lo de perto, para tentar apertar a sua mão. Barack Obama já está vestido como presidente da República em tempos de crise. Essa transformação de candidato em homem talhado para comandar a mudança foi sentida principalmente no terceiro debate com John McCain. Quanto mais o republicano atacava duramente as propostas, mais Obama crescia. E crescia sem fazer força, sem levantar a voz, sem expressar contrariedade, sem precisar usar nenhum recurso retórico. Não seria motivo de espanto se Obama não pronunciasse uma palavra durante todo e debate e mesmo assim saísse vitorioso. Até a sua mania de não apartear o adversário, deixar que ele fale até o fim, de não reagir, de se comportar com certa frieza, tão criticada pelos seus assessores, começou a funcionar a seu favor. Os marqueteiros de McCain conseguiram captar bem o espírito do personagem ao compará-lo a um pop-star. Mas não conseguiram destruí-lo colocando-o ao lado de Paris Hilton e Britney Spears, porque ele faz outro gênero. Está alinhado a outro tipo de gente, de gente que atua em outra esfera: aqueles que podem decidir o destino de uma nação. Por isso não adianta a campanha de McCain dizer que Obama é elitista, que não é patriota, que é socialista perigoso, que não está preparado. As pessoas comuns sabem. Não é mais preciso dizer nada. E está é a grande força de Barack Obama. Christian Salmon, escritor e pensador francês, diz que Barack Obama está usando a estratégia da diferenciação, muito mais do que a do enfrentamento. E jamais a distancia entre os dois candidatos pareceu tão abissal. McCain é da galáxia de Gutenberg, seus heróis são feitos de tinta e de papel, de experiências vividas talhadas no mármore. Obama é do planeta virtual, um homem de deslocamentos e pertencimentos múltiplos. É um herói “liquido” em constante formação, experimentação, transformação na conceituação de Gilles Deleuze. Salmon é autor do livro “Storytelling” (que lamentavelmente não está traduzido para o português) e pode nos ajudar a decifrar Barack Obama. Ele diz que na atual fase da sociedade de consumo nada mais chama a atenção. A informação é tão acachapante e tão fragmentada que é preciso contar histórias para despertar interesse. É preciso fazer o papel de Sherazade moderna e a comunicação política não escapa desse caminho. Barack Obama e John McCain seguiram as regras ao publicarem livros estabelecendo relatos (verdadeiros ou falsos) das suas vidas, um elemento chave nas campanhas eleitorais. E a partir desses relatos é que se desenvolve a história das campanhas. Obama conseguiu tornar a sua história capaz de constituir a identidade narrativa da sua candidatura. Tudo feito no tempo certo ao longo de toda a campanha, criando assim um discurso coerente. Com a montanha de dinheiro que está arrecadando Barack Obama está conseguindo sustentar uma rede de informação capaz de captar a atenção, estruturar, dar audiência e fortalecer a sua figura de candidato fora dos parâmetros até então adotados. John McCain também tinha uma boa história para contar: a do seu heroísmo no Vietnã e a de político independente, aquele que anda sozinho, de maverick. Mas não soube montar a rede para sustentar seu relato. Com a indicação de Sarah Palin como vice na sua chapa e com os ataques mais pesados em cima de Obama a coisa ficou pior ainda. Obama, com seus assessores e a invenção da arrecadação de fundos através da Internet em níveis industriais, conseguiu assim montar um esquema bem acertado, com uma estratégia coerente que não mudou do começo ao fim. Enquanto McCain ficou trocando de tática todo o dia e não conseguiu chegar a uma estratégia de campanha capaz de transformá-lo em um verdadeiro adversário. Dessa forma Barack Obama foi formatado através das técnicas mais modernas para ser o candidato que é. Não há dúvida da sua capacidade, mas é preciso saber se ele também tem um plano como o da campanha para dirigir a nação, caso seja eleito. E essa será a sua prova de fogo.
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