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Opinião
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| Fernando José Dias da Silva |
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O maior desafio de Barack Obama |
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A eleição presidencial nos Estados Unidos tomou outro caminho - mais grave, menos esperançado, cheio de dúvidas, armadilhas. E Barack Obama entrou na corrida pela Casa Branca com outro tipo de expectativa. Sua função era de mudar o que estava posto, pelo fato de ser negro e de acenar com uma nova forma de governar. Acontece que veio a crise e a responsabilidade cresceu desmesuradamente para Obama. Ele não é mais símbolo. É a aposta concreta. Agora ele está sendo visto como o único capaz de botar ordem num sistema cruel e ineficiente. Se vencer, o candidato democrata vai enfrentar o maior desafio das últimas décadas: mudar a geografia social e econômica do mundo globalizado perverso e excludente. Cabe a Barack Obama ser comparado a Franklin Delano Roosevelt. Somente ao presidente do “New Deal”, a ninguém mais. Qualquer outra avaliação será uma derrota, será o fracasso e a condenação ao rodapé da história, como vai acontecer com George W. Bush. E será que Barack Obama está consciente desse trabalho monumental que tem pela frente? Será que ele sabe que está sendo visto como a última saída? Não se tem a menor idéia. Mas Obama está dando indicações de que está disposto a enfrentar o monstro. Ele está fazendo o seu principal movimento. A sua maior ousadia dessa extensa campanha presidencial. Já está discretamente trabalhando com o Congresso para tomar medidas de emergência antes mesmo de assumir o posto. O gesto é arriscado, mas as propostas de Obama já estão no Congresso sendo discutidas pelos democratas e pelos seus assessores econômicos. Ele quer começar a governar um dia depois das eleições de 4 de novembro. Segundo suas declarações, a crise exige atuar sem esperar a mudança da administração no dia 20 de janeiro. Nancy Pelosi, também democrata, presidente da Câmara dos Representantes, diz que é possível aprovar um pacote de emergência durante o período de transição da legislatura. O Partido Democrata trabalha com a possibilidade de fazer uma grande maioria no Congresso, tanto na Câmara como no Senado. E essa maioria dará respaldo ao plano de Obama, que tem forte acento social democrata, com benefícios aos pobres, aos desempregados, com verbas para garantir o seguro saúde dos que precisam e abertura de frentes de trabalho para garantir o sustento dos despedidos. Esse tipo de reação do candidato democrata pode marcar uma nova etapa na história dos governos dos Estados Unidos. Mas é preciso primeiro que ele seja eleito. E ao que parece John McCain não entregou os pontos. Como sua proposta está esvaziada procura fazer terrorismo com o crescimento da candidatura de Obama, dizendo que ele é amigo de subversivos, não é patriota, vai aumentar os impostos para a classe média e pretende um governo socialista. Mas talvez o maior desafio de Barack Obama não seja bater John McCain nas urnas. A luta mais sangrenta será enfrentar os beneficiários do atual sistema. Uma das melhores explicações para a crise e também para o sistema financeiro global foi feita por Susan George, economista, escritora e ativista contra a globalização na França. Para ela a crise vem da explosão do crédito, do “efeito alavancagem” que permitiu a criação de 40 dólares por cada dólar real. Resultado das “inovações” dos bancos livres de qualquer policiamento. O mecanismo foi misturar toda a sorte de dívidas numa espécie de lingüiça. Depois fatiar e vender essa lingüiça para os outros com o aval das agências de risco. Os bancos manobraram bem e agora ninguém sabe quem é quem, quanto valem as fatias estragadas das lingüiças-dívidas e nem quanto o banco vizinho tem em caixa. O resultado é que ninguém mais quer emprestar dinheiro, há o congelamento do crédito, sangue vital para o sistema circulatório financeiro. A fábrica de lingüiças fechou, mas quem quer cuidar do terreno em que ela funcionou e montar um novo negócio em cima dos escombros são os mesmos responsáveis. Barack Obama só vai ter sucesso na sua empreitada se evitar que isso aconteça. Um trabalho de Davi contra Golias, porque todos são sócios da empresa, republicanos e democratas. Por isso a duvida sobre a capacidade de Obama em desmontar o esquema. Noam Chomsky, pesquisador do MIT e considerado a besta-fera do esquerdismo norte-americano, diz em artigo publicado no site Agência Carta Maior, que o movimento livre de capitais cria o que alguns chamam de “parlamento virtual” de investidores e credores que controla de perto os programas governamentais e “vota” contra eles, se os consideram “irracionais”, quer dizer, se são em benefício do povo e não do poder privado concentrado. Esse “voto” pode ser através da fuga de capitais, de ataques à moeda. Para Chomsky, os Estados Unidos tem efetivamente um sistema de partido único, o partido dos negócios, com duas facções, republicanos e democratas. Mas há diferenças entre as duas facções. A renda real das famílias de classe média e das famílias pobres cresce mais rápido com os democratas no poder, apontam estudos. Mesmo assim é preciso abstrair ilusões. Barack Obama terá uma oportunidade única se for eleito: a de acabar com a selvageria, colocar regras onde elas não existem, dar um cunho mais social ao governo e levar o Estado de volta à sua função de servir a todos. Um empreendimento espetacular, fenomenal. Difícil mesmo até para os que são eleitos.
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