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Opinião
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| Fernando José Dias da Silva |
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Poder simbólico |
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Editorial do jornal francês “Le Monde” diz que a crise financeira revela alguma coisa de chocante, porque profundamente imoral. E se resume à indecência dos atores financeiros e à inconseqüência dos políticos. Os primeiros, os atores financeiros, nos Estados Unidos e depois na Europa impuseram suas leis, passaram por cima dos principais sistemas de regulação pública, que temperavam a obsessão pelo lucro máximo, e inventaram um capitalismo de cassino prestes a explodir em pleno vôo. E de um dia para outro se voltam para os Estados pedindo ajuda para acertar, a golpes de trilhões de dinheiro público, a “débâcle” que eles iniciaram. Quanto aos segundos, os responsáveis políticos, é inquestionável que eles multiplicaram iniciativas para cobrir as arestas, para garantir o sistema bancário e financeiro, sustentar os poupadores e restaurar a confiança. Afinal, essa é a responsabilidade e o dever dos políticos. Mas acontece que hoje eles têm sérios problemas de credibilidade. Porque são os mesmos, em Washington e Londres principalmente, que explicaram durante anos que o mercado era capaz de se autoregular. Por isso é urgente voltar à política e à sua questão central: para que serve, para que deve servir a riqueza das nações? pergunta o “Monde”. Para melhorar a sorte das populações ou para enriquecer minúsculas aristocracias do dinheiro? A resposta se impõe, afirma o jornal francês. E não há dúvida que uma resposta precisará ser encontrada. Mas será difícil buscá-la na política. É preciso retornar à política, mas como, de que forma? Os Estados Unidos se apoiaram no século passado no poder econômico e militar, o “poder duro”. Mas também mostraram a sua superioridade na esfera simbólica. A primeira potencia mundial conseguiu seduzir os outros através da sua cultura, dos seus valores e das suas políticas, o “poder leve”. Foi através desse capital simbólico que permitiu aos norte-americanos atraírem talentos do resto do mundo e assim reafirmarem-se periodicamente como líderes em quase todos os setores. Só que esse poder simbólico entrou em crise. Os Estados Unidos estão tomando decisões na sua política externa de forma unilateral, sem a consulta e a legitimação de seus aliados e a invasão do Iraque é um exemplo. A democracia e a defesa dos direitos humanos estão sendo interpretadas como hipocrisia diante de Guantánamo e Abu-Ghraib. O modelo socioeconômico entrou em parafuso minado por um sistema cada vez menos solidário cujas falhas ficaram claras na desastrosa gestão dos problemas provocados pelo furacão Katrina. O fato de ignorar temas globais importantes como o das mudanças climáticas e a falta de apoio ao protocolo de Kioto ajudam no descrédito. E um dos indicadores mais sensíveis da diminuição do prestígio dos Estados Unidos é que as suas escolas vêm recebendo menos alunos e menos professores estrangeiros. O poder simbólico é mais barato do que o poder militar e o poder econômico, mas é mais difícil recobrá-lo porque ele não se baseia nos números, nos indicadores quantitativos. É verdade que as eleições presidenciais podem mudar esse fluxo de desidratação do poder simbólico, mas será preciso algumas etapas a serem vencidas. Primeiro é preciso confirmar um poder personalizado na campanha para a Casa Branca. E só depois, com um novo presidente eleito, iniciar o caminho para a retomada da superioridade simbólica do país. Tanto Barack Obama como John McCain desempenham papéis que acentuam o personalismo na política. São atores que interpretam seus próprios personagens: eles mesmos. Obama diz as falas de Obama e McCain procura ser fiel ao seu próprio enredo. Para muitos analistas não foram as propostas nem as respostas aos ataques de John McCain que fizeram Barack Obama vencer o segundo debate. Foi mesmo o seu swing. O bailado no palco executado com leveza e segurança pelo Fred Astaire da política norte-americana. Pode até parecer detalhismo, mas não é, porque depois que as campanhas eleitorais passaram a ser eletrônicas o desempenho pessoal conta muito. Nos Estados Unidos, no Brasil, em toda a parte a identificação partidária se enfraquece e o personalismo ganha terreno. Já faz tempo que nós estamos no ciclo dos grandes interpretes na política. E para cada momento existe um papel a ser desempenhado. Na crise funciona o papel de pai carinhoso, mas duro e exigente. Nos tempos mais amenos funciona o papel de amigo e assim por diante. John McCain, mesmo que não queira, carrega o vício dos atores antigos, herdeiro do estilo de seus companheiros da companhia de teatro e por isso corre o risco de ser visto como um novo George W. Bush. Barack Obama se diz o interprete da mudança mesmo que ele não deixe claro qual será essa mudança. Ao eleitor cabe escolher o mais convincente. E só depois dessa temporada é que vão poder começar os ensaios para o novo espetáculo, talvez muito mais difíceis do que a atual peça em cartaz: o de recobrar o poder simbólico da presidência da República e dos Estados Unidos.
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